Saturday, January 07, 2012

Sonhos

Acabo de acordar. Sonho confuso. A parcela de realidade nisso e que muita vezes, acordados, sonhamos com coisas que nos afastam ainda mais da felicidade.

Sunday, May 25, 2008

...

Fui grande parte de um sonho destemido
Sonhado a dois, vivido a sós e a mil
Feliz, eterno como o vasto sempre foi
Lindo, amigo, azul, celeste anil

Pelas estrelas entreguei a minha sorte
A vã beleza de amar sem todo medo
Se todo medo fosse mesmo a dor do fim
Mesmo do fim seria todo o amor do mundo

E quem não bate à porta de tal sentimento
Ao vento sopra meu momento leve e puro
Seguro espera despertar o acalento
Das mãos de outrora que já seguem pelo adeus

Para quem ama e bem protege os seus
A paz no peito que amarga a vida
Dos doces lábios que afagavam a alma
aos pés descalços, sujos com a despedida

Felizes dos breves, que acendem o corpo
Vorazes os duradouros que consomem a mente
Bebemos a sede do que mais ardente
Termina em cinzas o afeto, morto

Ao bem de todos, dois mais nobres amigos
Fizeram a força de viver sem perguntar
O que bem resta deste fruto proibido
da natureza que bem se pôs a desenhar

Bem poderia lamentar pelo abrigo
E por tais males, respirar tal coração
E corro muito, por vontade, medo e fé
E do passado, corro mais que minhas pernas

Por essa graça, doce mel, prisão eterna
Jaz nas lembranças o poder do que foi feito
Perdi no tempo minhas memórias, terno leito
Nas tristes linhas, parte de mim por fim hiberna

Cabe ao futuro passar o presente de nossas luzes
Sobra ao passado iluminar nossas lembranças
Lembrar o sol, seus pores, suas virtudes
Chorar à lua a crescente dor das crianças

Fiz desse mundo o doce lar dos escondidos
E dos amados tiro a força dos poetas
Pelo presente, curto a dor dos decididos
Cultivo a vida, grande sorte dos nascidos

A Deus pertence esse sonho, vespertino
Por meu desejo faço ode ao meu destino
Se pelas sendas, quero a vida em mil caminhos
Por mim eu sigo, como sempre, bem melhor

Melhor dos fracos, que lamentam o que lhes resta
Queriam os fortes não chorar pela derrota
Se pela vida, optei por minha vida
Por minha vida, viverei meu bom agora

Agora e sempre, fortes trunfos da vontade
Sei para sempre que tais flores são essência
As melodias, doces sons da história escrita
História viva, sempre mais, sou reticências.

Sunday, December 23, 2007

Qual das Novas?

Qual das Novas?
Surgiu uma vontade de pensar a felicidade. Diferentemente de todos os autores que arrecadaram dinheiros de felicidade ao escreverem os livros de auto-ajuda, em momentos que, por estarem muito felizes, não enxergam os problemas dos outros como tão graves, eu acredito que o caminho para essa utopia tão mensurável é binomial, como quase tudo que existe. Em meu "bom-péssimo" português, isso significa que a medida da felicidade é fundamentalmente circunstancial, com um inalienável "q" de química e, "più che tutto", resume-se a não estar infeliz. Elementar, Watson? Watson?
Minhas vagas noções de capitalismo permitem que eu presuma que o sucesso de tantos produtos que promovem a felicidade, das páginas do Paulo Coelho aos produtos do Shoptime, não são um reflexo assintomático de que o mundo está infeliz. Seja pela falta de insegurança, pelo medo do Bin Laden ou pela campanha do Corinthians, o mundo não se sente feliz, desejando avidamente a plenitude. Mas de quê? Essas linhas mequetrefes fariam ainda menos sentido se eu não me lançasse o desafio de afirmar que o mundo se nega a dizer que é infeliz. Tudo, paparazzi, menos fotografar o ruim ou o baixo astral crônico, muito menos o da Xuxa. As fotos têm negativos, e não são aqueles rolos com cor de calda de caramelo. Somos nós, que continuamos a jogar na matéria nossas mais intransmissíveis experiências sensoriais. Um barulho de caixa registradora das antigas soaria coesivamente bem.
Voltamos à época do Imperialismo. O dinheiro não traz felicidade, manda buscar. De helicóptero. Há quem diga que isso se fundamenta pelo fato de ser melhor chorar em Nova Iorque do que em Nova Iguaçu. Nada contra nenhuma das novas que bem conheço, mas o preconceito e a Missão Civilizadora do Homem branco(não-cotista) voltaram com força total, verbal e bossal. Direto ao ponto: quem é que se considera alguém para se atrever a mensurar o que é a felicidade do outro- além da Mídia ou do setor de responsabilidade social das grandes empresas? O que é Nova Iorque para quem nasceu em Nova Iguaçu, e o que é Nova Iguaçu para o Robert de Niro? Qualquer comparação estúpida é redundantemente estúpida. Faz parte de nossa sociedade julgar. Até os ricos que querem sustentar o status do poder de consumo o fazem. Isso vem da força e do hábito pobre de comparar os preços, escolher o mais caro com e alimentar a necessidade doentia de se sentir em destaque. Dá pra ser feliz assim?
Vivemos todos num Big Brother, e somos vigiados o tempo inteiro por todos. Menos por nós mesmos. A construção de nossa identidade se resume a tatuagens, a gírias, a roupas e a tudo que, no binômio da vida, faz com que nos sintamos um pouco mais especiais do que aquilo que somos quando viemos ao mundo, por sinal, sem um pingo de personalidade. Acreditam que Einstein nasceu da mesma maneira que o aluno de qualquer escola ruim das Novas Iguaçu e Iorque? Acreditam que Madre Teresa de Calcutá e Adolf Hitler de Branau gorfaram da mesma maneira e zuniram o prato de papinha na babá? Tenham fé nisso.
Somos iguais em origens, mas diferentes em vida e, portanto, em comportament e em parâmetros de felicidade. Retire a mão do mouse e levante a mão quem já sonhou em fazer uma loucura. Agora, só quem sonhou e fez a loucura. Agora, quem pensou muito antes de fazer a loucura ou avaliou os riscos dessa loucura. Por último - juro -, quem teve a feliz audácia de sorrir do próprio desejo e do fato de imaginar por que chamar um desejo, que é seu, portanto, é humano, seria loucura. Não há necessidade de haver medo da barbárie, dos manés de Columbine ou de todos aqueles que, ao nos colocarem em risco, acabam por comprometer o escasso tempo que nós temos nesse planeta para sermos felizes. Quantas privações devem ser impostas a qualquer ser humano, biologicamente dotado de desejos gastronômicos, sexuais, afetivas e outros - põe outros nisso! -, para que ele se torne justamente a escória que tanto tememos? Isso varia de pessoa para pessoa, mas uma coisa é fato, e quando eu utilizo o termo "coisa", e tiro 0,5 ponto de minha credibilidade como aventureiro da escrita, é porque a coisa é abstrata mesmo. Coisificando: o ser humano é um animal dos mais típicos, e só perde o rumo para a sua satisfação quando a sociedade - com minha ajuda, inclusive - passa a privá-lo de tudo aquilo que é necessário para sua sobrevivência digna. Sobrevivência digna é a felicidade. Anotem isso em uma nota de 100 reais.
Só sabemos o que é a felicidade quando gozamos da experiência da não-privação, o que, atualmente, é amplamente apresentado como conforto, luxo e abundância, além do clássico requinte e bom gosto. Nessa ordem, por favor. O que representaria um esplendoroso passeio pela Lexington para um morador de Nova Iguaçu? O que representaria um maravilhoso churrasco de confraternização, com direito a futebol, para um turista que ouviu dizer que ir à Nova Iorque é o apogeu de quem caminhou por esse mundo? Isso equivale a comparar Michel Preudhomme com Michel Platini. Enquanto surge a distração com vagas semelhanças entre os nomes, quem pára e pensa sobre a finalidade de se compará-los? Quer goleiro ou atacante, suco ou refrigerante, Búzios ou Petrópolis? Ou meio de campo, água mineral ou ficar na sua casa?
Há de tudo no mundo, e só os nossos medos justificam nossa crônica falta de talento para saber o que nos faz felizes. Se você estiver se sentindo infeliz(cara, essa frase é vende muito!), lá vai a dica que, de tão simples, eu não teria coragem de cobrar a fortuna que ela vale: faça tudo que trouxer prazer. Se você conseguir sorrir sozinho com isso, sem fazer ninguém chorar, sorria mais ainda. Você acabou de investir em sua existência e gozar do indescritível fato de poder realizar algo que te deu vontade. Faça um Big Brother de si, e avalie o que na sua vida é capaz tirar o prazer de te fazer ir adiante, e de perder o tempo sem agradar quem você ama, ou pegar uma bola de futebol e dar um chute totalmente descompromissado. Ou comer. Ou - perdoem-me os médicos alarmistas - coçar uma região do corpo até o momento em que se decidir procurar um dermatologista. Ou parar de ler esse texto aqui.
Quando nascemos, nosso cronômetro é acionado. É um cronômetro perfeito, estável, sem influências terrestres e da mesmíssima marca daqueles que se usam nas Novas Iguaçu e Iorque. Faça o que tem que ser feito e não peça a opinião subersiva de amigos, anúncios ou bem intencionados. Nunca ninguém se foi sem cumprir sua missão. Não se prive dela, e ignore o fato de esse texto estar reduzindo em ínfimos valores os percentuais de vendas de livros de auto-ajuda. Isso significará, no máximo, uma quedinha na Bolsa de...

Wednesday, May 30, 2007

Nos alfarrábios de Princeton

Uma mulher muito mulher interceptou-me no ponto de ônibus e perguntou-me as horas.
Que tesão! O tempo é relativo para os homens!

Um feto lispectoriano

Esbarrei comigo um dia desses. Adorei. Fazia tempo que não me via, fazia tempo que eu não tinha aquela conversa gostosa. Nos desbotados tempos de minha infância, costumava conversar comigo quase todo dia. Entre um golpe de meus bonecos e um espirro irritante de minha alergia, sempre era feito um comentário, sempre uma ponta de esquizofrenia pueril escapava de minha boca já inocente. Quanto de mim eu descobria nesses diálogos? Quanto de verdade eu dizia a mim mesmo? Hoje, com um pouco mais de leitura, tenho certeza de que comia minhas próprias baratas, que, pelo menos em meus infinitos momentos, eu era estrela de minhas horas. Nunca esqueço aquelas conversas que desafiavam minha inteligência, que me chamavam de burro sordidamente e riam de uma obviedade que só eu os bonecos não viam. Na minha cabeça, sempre fui convencido de que dois e dois totalizavam cinco, mas o diálogo sempre ia além: o que, afinal, é cinco? Meu cinco virava quatro, às vezes seis. A conversa só não deixava que o cinco permacesse cinco.
O mundo rodava como meu ventilador de teto bem ilustrava. Deixava-me tonto essa tonteira de ser criança. Deixava-me criança toda essa lembrança de tonteira, de esperança. A idade da descoberta, que debatia comigo como se eu fosse um adulto prematuro, ensinou-me a ouvir, a enxergar, menos a falar. A hora de falar seria mais tarde. Mesmo assim, ensinou-me a conversa, o discurso deveria vir depois do enxergar, depois do ouvir. Sempre foram duas orelhas, não? Acho que ouvi muito bem o que a vida me fez ver. Agora, só pelo silêncio, posso falar.

Monday, November 06, 2006

Burros e tolos

Falaram-me, certa vez, que é preciso ser muito burro para chamar o acaso de Deus. Repliquei veemente que era muito tolo chamar Deus de acaso.

Minha homenagem à minha afilhada Rebecca, cujo pertencimento a esse mundo completou uma eternidade em nossos corações.

Sunday, October 22, 2006

Perfume e geografia

Ele era professor de Geografia. Ela, vendedora de perfume. Ele sempre gostou de mulheres perfumadas. Ela sempre admirou homens inteligentes. Não é à toa que o destino, esse monstrinho que brinca com nossa sorte, disserta "fiadamente" sobre nossas vidas sem ao menos pedir licença. Será?

Ele saiu do colégio ao meio-dia de mais uma segunda-feira. O primeiro dia de trabalho da semana não poupa quem gosta de aproveitar o final de semana e se cansar sem ser por dinheiro. Churrasco, bebida e pelada entre amigos costumam tirar o gosto de giz da boca.Como bom filho não tem hora para mostrar carinho, um perfume parecia ser uma boa pedida para agradar a melhor mãe no mundo. Gostava do cheiro de perfume, mas só sabia dizer que gostava. Não diferenciava, não entendia do assunto. Na verdade, chutou perfume como presente da mesma forma que chutaria Skol como cerveja numa roda de amigos. Ele nunca foi especial a ponto de
ter feeling para o que mulheres gostam ou, pelo menos, gabar-se disso. Mesmo assim, enxergava bem. Olhos atentos procuraram e acharam uma perfumaria. Os mesmos olhos nunca foram tão hábeis para encontrar muito na vida. Felicidade, preços mais baratos no mercado e relacionamentos afetivos duradouros nunca foram encontrados com facilidade. Nesse último, então, sempre foi desencontrado. Isso porque, reza sua lenda particular, ninguém fita um grande amor diretamente. Indiretamente, alguém o consegue com sorte, acaso e ajuda do monstrinho. Aquela perfumaria seria a primeira e a última que ele adentraria em sua vida.

Ele entrou numa perfumaria como uma criança que entra na igreja. Não sabia se reparava na arquitetura, nas pessoas que lá estavam, ou em inúmeras outras coisas. Tudo poderia protagonizar seu momento, menos Deus. Haveria de estar enganado em alguns instantes. Ao balcão, fitou uma desconhecida e pediu um perfume. A sorriso amarelo da atendente perguntando qual tipo de perfume era o desejado não o cativou. Pelo contrário, constrangeu-se com sua particular ignorância no assunto. Questionou por instantes o que fazia em uma perfumaria um homem de 41 anos, sem mulheres na vida, a não ser a própria mãe. Logo descobriria. Pediu para experimentar o perfume do frasco azul. O frasco era bonito, o marketing, de primeira. Um especialista diria que qualquer um que não entendesse de perfumes o compraria. Ele era um homem inteligente, mas altamente desespecializado. Sentia-se assim, amargamente. Ao borrifar o perfume no pulso, após instruções da atendente, sentiu que havia alguém ou algo a mais no ambiente que não eram perfumes, atendentes, ou inquietudes pessoais. Ao fundo ouviu uma voz que mais parecia uma harpa tocando em sol maior. Na verdade, ele não fazia idéia do que era uma harpa tocando em sol maior, mas, naquele momento, isoladamente, pôde descrever a si mesmo o que era um sol maior. "Pode levar. É maravilhoso". As palavras soaram retumbantes em sua cabeça. Era uma voz grossa e doce, como jamais esperara ouvir, que jamais pensara existir. No momento, palavras faltavam em sua boca, e ficava feliz por isso, afinal, era melhor apreciar a harpa do que comprometer a melodia com possíveis inconveniências. Olhar, entretanto, não comprometeria a trilha de seu momento. Fitou retardadamente a origem daquela voz, a origem enfim da neo-puberdade platônica que batia em seu coração.

Ela só entendia de perfumes. Após ser demitida de uma empresa de cosméticos, transformou sua indenização no maior sonho de sua vaidade: perfumar a vaidade dos outros. Sempre foi mulher sem sal, considerada bonitinha pelos homens e ajeitadinha pelas mulheres. Na verdade, não gostava de si, porque presumia que ninguém gostasse dela. Logo ela que era bonitinha, ajeitadinha e perfumada. O que faltava para ela? Naquele momento, nada. Quando seus olhos cruzaramcom os olhos cansados mais penetrantes que já vira, sentiu que poderia fechar a loja e fugir para Fiji. Vira Fiji num documentário, e foi exatamente aquele paraíso que veio à sua cabeça. Acabara de fitar uma barba que nem George Clooney faria tão charmosamente mal feita. Fitou uma inocência que jamais vira em qualquer homem. Mal podia compreender por que, ela, uma requintada dona de perfumaria, orgulhosa por entender das fragrâncias que os homens tanto buscam entender, não conseguia deixar de olhar aquele analfabeto em sua especialidade. Teria ele um cheiro inédito, digno de ser engarrafado? Não sabia, nem queria saber. O cheiro que não sentia passeou pelo ar e chegou a seu coração.

Do outro lado da linha, a harpa continuava tocando. Nem sabia mais que estava segurando um frasco de perfume, que o perfume estava em seu pulso, que a atendente o perguntou mais de uma vez se ele havia gostado. Tudo estava azul, como o frasco que há pouco pegara, e que soltara sem largá-lo dos dedos. A viagem àquele atraente desconhecido era excitante. Sem olhar para a atendente, disse que ia levar o azul. O cheiro e a cor permeavam o ambiente. Deixou o dinheiro em cima da bancada, com um generoso troco. Colocou o pacote do perfume debaixo do braço e, como um adolescente que beijou no primeiro encontro, saiu da loja de costas, mirando o que não sabia explicar.

Ela mal conseguia engolir em seco. De repente, não sabia o que fazer com tanto perfume. Tomou a frente da atendente para pegar o dinheiro deixado por ele. Massageou o dinheiro com um apego quase que infantil. Arrepiou-se com a nota de 50 reais mais quente que já tocara. Respirou fundo como a Hortência antes do lance livre. Lembrou-se de que vendia um perfume chamado Hortência. Lembrou-se também de que esse perfume estava em falta. Lembrou-se ainda de que o Hortência também tinha frasco azul. Lembrou-se, enfim, do homem que cheirou o perfume do frasco azul e a olhou. Não se lembrava mais de nada então.

Ele andou 30 metros na rua como se estivesse patinando no gelo. Parou. Não conseguia ir além. Pensou em um segundo em mais de 100 razões para voltar à loja naquele momento. Todas elas eram absolutamente tolas, mas, que diferença fazia? Sentia-se um tolo mesmo. Voltou. Nem parecia a decisão mais importante de sua vida.Ela quase derrubou 500 reais em perfume quando viu o homem do perfume azul entrar. Ele nem sabia o que dizer quando ele já estava a meio metro dela. Ela disse o "Pois não? mais inaudível de sua vida. Ele se apresentou como se estivesse no banco dos réus. Ela achou aquilo fofo. Ele não sabia o que era fofo. Ela sorriu como nunca. Ele nunca viu um sorriso como aquele. Eles conversaram como crianças. Ela, como uma infantil vendedora de perfume. Ele, como um pueril professor de geografia. Ele fez um convite. Ela aceitou. Eles se encontraram. Eles se completaram. Eles se casaram. De Geografia, ela só sabia onde era Fiji. De perfumes, ele só sabia o que trazia o cheiro de sua felicidade. Da vida, eles só descobriram que destino é o monstrinho que culpamos quando não admitimos nossas escolhas. Elas juntam até perfume e geografia.

Tuesday, October 10, 2006

É dose

Com todo respeito à qualificada equipe do Fantástico, mas, para ver o jornalismo de politécnico da Glória Maria, é melhor até ver o debate. No primeiro bloco, entretanto, pensei em reconsiderar. A previsibilidade da política brasileira no tocante à argumentação dos candidatos estava estampada no rosto(isento) do Boechat. Aos poucos, mesmo assim, a conversa de botequim, travestida de debate e revestida pelos protocolos da boa conduta(sic), parecia mais quente que a Sibéria do Paulo Coelho. Uma grande vantagem, portanto.
Mas o que tínhamos, afinal, na soturna noite de domingo? Tínhamos Alckmin e seu grande atributo: uma inquestionável cara de presidente. Sabe Deus – ou ele, eventualmente - o que o tucano pode fazer pelo Brasil, mas é fato que o homem tem cara de presidente. Desses que sorri abobalhado com aquela faixa já encardida de tanto premiar incompetentes. Aquela cara de intelectual de classe média, que quase derrubou Lula, sem ao menos uma gota de álcool, logo na primeira dose. Do outro lado, leidisendienteumein, o outro. Bebendo água desta vez, Lula, acima do peso(talvez o botox), portava-se como um advogado malicioso, ou pelo menos propunha-se a isso. Estava irreconhecível. Um hábil pescador de palavras, um sereno deturpador de discursos, ou seja, coisas que ele mal sabe explicar. Tangenciou as perguntas do presidenciável Alckmin com retórica de apresentador de talkshow de quinta, e olhava como rei para o adversário, como se a vitória viesse tão logo ele pedisse a saideira. Impossível lembrar um momento sequer em que ele começasse sua pergunta, réplica ou tréplica, sem desqualificar ou ironizar seu mortal oponente. O 3º grau de Geraldo não
foi suficiente para conquistar o respeito do Pós-doutor em Ciências da Rebeldia Sem Causa Trabalhista, que chamava o médico de “desinformado” e de “mentiroso”, ao passo que ousava confundir a quota de 170 com a de 170.000, em alusão à quantidade de famílias beneficiadas por projetos sociais em São Paulo. Alckmin, infelizmente, perdeu a oportunidade de chamar o presidente da república de, digamos, “confuso”.
Em um determinado momento, Geraldo pôs-se a jogar baixo, mas com valores altos. A menção ao cartão utilizado pelo presidente para gastos considerados desnecessários deixou Lula balançado e, aparentemente, com medo do SPC. E sobrou para FHC, para a globalização, para os 400 anos do PSDB. Até Covas foi desenterrado. O avião do presidente vai ser vendido, assegurou Alckmin. Isso nunca incomodaria Lula, afinal, para ele, alguns milhões a mais ou a menos de Bolsa-Família ou Bolsa-Escola não pesam no bolso, nem na consciência.
Entre mortos e feridos, enfim, salvaram-se os jornalistas. Fizeram ótimas perguntas para candidatos treinados para marketing pessoal, réplicas e tréplicas, mas não para responder. A população, no entanto, precisa de respostas. Apresentaram-se dois Robin Hoods, mas nenhum bandido. Nossos debates, em nossos botequins, valem muito mais. É mais difícil alguém sair sem acertar as contas.